Imagem editorial abstrata representando endometriose profunda, com sensação de camadas internas, complexidade pélvica e investigação clínica de estruturas como intestino, bexiga e ligamentos.

Endometriose profunda: o que significa quando a doença atinge estruturas pélvicas

Receber um laudo com a expressão endometriose profunda pode gerar preocupação imediata. O termo parece grave, técnico e, muitas vezes, pouco explicado. A paciente costuma sair do exame com várias perguntas: isso significa que a doença está avançada? Precisa operar? Pode atingir intestino, bexiga ou ureter? Afeta a fertilidade? É diferente de ter apenas cólica menstrual?

A resposta exige precisão. Endometriose profunda é uma forma de endometriose em que as lesões não ficam apenas na superfície do peritônio, mas infiltram tecidos e podem envolver estruturas pélvicas como ligamentos uterossacros, septo retovaginal, reto, sigmoide, bexiga, ureteres e região posterior da pelve. Essa forma pode estar associada a dor pélvica importante, dor profunda na relação, dor para evacuar, sintomas intestinais ou urinários cíclicos e impacto significativo na qualidade de vida.

Isso não significa que toda paciente com endometriose profunda terá sintomas graves ou precisará de cirurgia imediata. Também não significa que um exame normal exclui todas as formas de endometriose. O ponto central é entender onde a doença está, quais sintomas ela causa e quais são os objetivos da paciente, especialmente em relação à dor, fertilidade e qualidade de vida.

A European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE) publicou diretriz atualizada em 2022 sobre diagnóstico e manejo da endometriose, reforçando que a avaliação deve considerar sintomas, exame físico, exames de imagem, infertilidade, recorrência, idade, preferências da paciente e objetivos terapêuticos.

O que é endometriose profunda?

Endometriose profunda, também chamada em muitos textos técnicos de endometriose infiltrativa profunda, é uma forma da doença em que as lesões infiltram tecidos abaixo da superfície peritoneal e podem atingir estruturas anatômicas relevantes da pelve.

Em termos práticos, isso significa que a doença pode estar em regiões como ligamentos uterossacros, fundo de saco posterior, septo retovaginal, parede do reto ou sigmoide, bexiga, ureteres, ovários e áreas próximas aos nervos pélvicos. Essa localização importa porque a pelve não é apenas um espaço anatômico vazio. É uma região com órgãos reprodutivos, intestino, bexiga, ureteres, vasos, nervos, ligamentos e musculatura.

Quando a endometriose envolve essas estruturas, os sintomas podem ser mais complexos e menos óbvios do que uma cólica menstrual isolada. A paciente pode apresentar dor pélvica, dor intestinal, dor urinária, dor na relação, infertilidade ou combinação desses sintomas. Por isso, o diagnóstico não deve se limitar à pergunta “existe ou não existe endometriose?”, mas deve tentar responder onde está a doença e qual impacto ela produz.

Endometriose profunda é a mesma coisa que endometriose grave?

Nem sempre. Essa é uma confusão comum. A palavra “profunda” se refere principalmente à profundidade e localização das lesões, não automaticamente à intensidade da dor ou à gravidade percebida pela paciente.

Algumas mulheres com lesões profundas podem ter dor intensa, sintomas intestinais, dor na relação e grande limitação funcional. Outras podem ter lesões identificadas em exame de imagem e sintomas menos exuberantes. Também ocorre o contrário: pacientes com lesões superficiais podem sentir dor importante, mesmo sem grandes achados em ultrassonografia ou ressonância.

Portanto, o erro é interpretar “profunda” como sinônimo automático de “caso desesperador”. O correto é avaliar o conjunto: localização da doença, sintomas, impacto funcional, desejo reprodutivo, idade, exames, histórico cirúrgico e resposta a tratamentos prévios.

Quais sintomas podem sugerir endometriose profunda?

Os sintomas variam conforme a localização das lesões. Os mais frequentes incluem cólica menstrual intensa, dor pélvica crônica, dor profunda durante ou após a relação sexual, dor para evacuar no período menstrual, constipação ou diarreia cíclica, distensão abdominal, dor para urinar durante a menstruação e, em alguns casos, dificuldade para engravidar.

A Mayo Clinic descreve que a endometriose pode causar dor pélvica, dor durante ou após a relação sexual, dor ao evacuar ou urinar, sangramento excessivo e infertilidade. Também explica que, quando a doença envolve órgãos pélvicos de forma infiltrativa profunda, como intestino ou bexiga, ela pode ser mais frequentemente identificada por exames de imagem especializados, como ultrassonografia ou ressonância magnética.

O National Institute for Health and Care Excellence (NICE), órgão britânico responsável por diretrizes clínicas baseadas em evidências para o sistema de saúde do Reino Unido, recomenda suspeitar de endometriose quando há dor pélvica crônica, dor menstrual que afeta atividades diárias e qualidade de vida, dor profunda durante ou após a relação sexual, sintomas gastrointestinais cíclicos, sintomas urinários cíclicos ou infertilidade associada a esses sintomas.

Por que a endometriose profunda pode causar dor na relação?

A dor profunda durante ou após a relação sexual pode ocorrer quando lesões estão em regiões posteriores da pelve, como ligamentos uterossacros, fundo de saco posterior, septo retovaginal ou áreas próximas ao reto. Durante a penetração mais profunda, pode haver tração, pressão ou mobilização dessas estruturas, provocando dor.

Esse tipo de dor não deve ser reduzido a “tensão”, “falta de relaxamento” ou “questão emocional” sem investigação. Esses fatores podem coexistir e influenciar a experiência da dor, mas a endometriose profunda pode ter substrato anatômico real. O ponto correto é não psicologizar de forma simplista uma dor recorrente e profunda.

Ao mesmo tempo, dor na relação não significa automaticamente endometriose profunda. Outras causas incluem ressecamento vaginal, infecções, vulvodínia, vaginismo, disfunção do assoalho pélvico, adenomiose, miomas, doença inflamatória pélvica e fatores psicosexuais. O diagnóstico exige integração clínica.

Quando a endometriose profunda atinge o intestino

Quando a doença envolve reto, sigmoide, septo retovaginal ou regiões próximas ao intestino, os sintomas podem se parecer com distúrbios gastrointestinais funcionais, como síndrome do intestino irritável. A paciente pode relatar dor para evacuar, sensação de pressão no reto, constipação, diarreia, distensão abdominal ou piora intestinal no período menstrual.

O sinal mais importante é a ciclicidade. Sintomas intestinais que pioram de forma previsível perto ou durante a menstruação devem levantar suspeita de endometriose, especialmente quando aparecem junto com cólica menstrual intensa, dor pélvica ou dor profunda na relação. O NICE inclui sintomas gastrointestinais cíclicos, especialmente evacuação dolorosa durante a menstruação, entre os sinais que devem levantar suspeita clínica.

Sangue nas fezes durante o período menstrual pode ocorrer em alguns casos, mas não deve ser atribuído automaticamente à endometriose. Sangramento retal exige avaliação médica, porque também pode ocorrer por hemorroidas, fissuras, doença inflamatória intestinal, pólipos, tumores e outras causas.

Quando a endometriose profunda atinge bexiga ou ureteres

A endometriose profunda também pode envolver bexiga ou ureteres. Quando há acometimento urinário, a paciente pode apresentar dor para urinar durante a menstruação, urgência urinária, dor pélvica associada ao enchimento vesical ou, em casos selecionados, sangue na urina durante o período menstrual.

O acometimento ureteral merece atenção particular porque pode evoluir silenciosamente em alguns casos. O ureter é o canal que conduz a urina do rim até a bexiga. Quando há compressão ou infiltração por endometriose, pode haver dilatação do sistema urinário e risco para a função renal se o quadro não for reconhecido.

Isso não significa que toda paciente com endometriose precise fazer investigação urinária ampla. Significa que sintomas urinários cíclicos, dor lombar inexplicada, alterações de imagem ou suspeita de doença profunda lateralizada devem ser avaliados com seriedade.

Como os exames ajudam no diagnóstico?

A avaliação começa pela história clínica. O médico deve entender quando os sintomas começaram, se pioram com a menstruação, se há dor na relação, sintomas intestinais, sintomas urinários, infertilidade, cirurgias prévias, uso de hormônios, exames anteriores e impacto funcional.

A ultrassonografia transvaginal especializada para endometriose e a ressonância magnética da pelve podem ajudar a mapear endometriose profunda, especialmente quando há lesões em ovários, ligamentos uterossacros, septo retovaginal, intestino, bexiga ou ureteres.

Em casos de suspeita de endometriose profunda, o exame de imagem não deve apenas “procurar endometriose” de forma genérica. Ele deve mapear compartimentos anatômicos: compartimento anterior, relacionado à bexiga e ureteres; compartimento médio, envolvendo útero, ovários e ligamentos; e compartimento posterior, incluindo ligamentos uterossacros, fundo de saco posterior, septo retovaginal, reto e sigmoide. Essa abordagem por compartimentos é importante porque orienta planejamento terapêutico e, quando necessário, planejamento cirúrgico.

Esse ponto é decisivo: exame normal não exclui endometriose, especialmente formas superficiais. Por outro lado, quando há suspeita de endometriose profunda, exames especializados podem ser muito úteis para planejamento terapêutico e cirúrgico.

Ultrassonografia ou ressonância: qual é melhor?

Não existe uma resposta única. A qualidade do exame depende da técnica, do protocolo e da experiência do profissional. Uma ultrassonografia transvaginal feita com protocolo específico para endometriose e por examinador experiente pode identificar sinais importantes de endometriose profunda. A ressonância magnética pode ser útil para mapear extensão da doença, avaliar regiões difíceis, complementar dúvidas e planejar cirurgias complexas.

Em geral, o pior caminho é tratar qualquer ultrassonografia pélvica simples como se fosse equivalente a um mapeamento especializado de endometriose. O exame precisa responder perguntas específicas: há endometrioma? Há sinais de aderência? Há acometimento de compartimento posterior? Há lesão intestinal? Há bexiga ou ureter envolvidos? Há mobilidade reduzida entre os órgãos?

A diretriz ESHRE 2022 reforça a importância de abordagem diagnóstica integrada e individualizada, com uso de exame clínico e métodos complementares conforme o contexto da paciente.

Endometriose profunda sempre precisa de cirurgia?

Não. Esse é um erro frequente. Endometriose profunda não significa automaticamente cirurgia imediata. A decisão depende de sintomas, intensidade da dor, localização das lesões, acometimento intestinal ou urinário, infertilidade, idade, reserva ovariana, resposta ao tratamento clínico, desejo de engravidar e risco de complicações.

Tratamentos hormonais podem ser úteis para controle de dor em algumas pacientes que não desejam engravidar naquele momento. Analgésicos, fisioterapia pélvica, manejo intestinal, suporte psicológico e cuidado multidisciplinar também podem fazer parte do plano, dependendo do caso.

A cirurgia pode ser considerada quando há dor importante refratária ao tratamento clínico, lesões profundas com impacto funcional, endometrioma com indicação específica, comprometimento intestinal ou urinário relevante, infertilidade em contexto selecionado ou necessidade de restaurar anatomia pélvica. Mas uma cirurgia mal indicada pode gerar riscos, recorrência, aderências, impacto ovariano ou complicações. Portanto, a decisão deve ser técnica, não automática.

Por que a equipe especializada importa?

Endometriose profunda pode envolver regiões anatômicas complexas. Quando há suspeita de acometimento intestinal, urinário ou de compartimento posterior avançado, a abordagem pode exigir equipe experiente, incluindo ginecologista especializado em endometriose, radiologista com experiência em mapeamento, cirurgião colorretal, urologista, especialista em fertilidade, fisioterapeuta pélvica e manejo de dor.

Isso não significa que toda paciente precise de todos esses profissionais. Significa que casos complexos não devem ser tratados como cirurgia ginecológica simples. O planejamento pré-operatório precisa mapear a extensão da doença, prever riscos, alinhar expectativas e definir objetivo: aliviar dor, preservar fertilidade, tratar órgão acometido, evitar progressão ou melhorar qualidade de vida.

A diretriz ESHRE 2022 recomenda que mulheres com endometriose profunda sejam encaminhadas para centros de referência quando houver doença extensa, acometimento de órgãos como intestino, bexiga ou ureter, dor complexa, infertilidade associada ou necessidade de cirurgia avançada. Esse encaminhamento não é sinal de gravidade inevitável, mas de planejamento adequado.

Endometriose profunda pode afetar a fertilidade?

Pode, mas não de forma igual em todas as pacientes. A fertilidade pode ser influenciada por inflamação pélvica, aderências, alteração da anatomia, comprometimento tubário, endometriomas ovarianos, idade, reserva ovariana e fatores masculinos associados.

Algumas mulheres com endometriose profunda engravidam espontaneamente. Outras precisam de tratamento cirúrgico, reprodução assistida ou combinação de estratégias. A decisão depende do tempo de infertilidade, idade, reserva ovariana, sintomas, localização da doença, fator masculino e objetivo reprodutivo.

O erro é tratar fertilidade e endometriose como assuntos separados. Em mulheres que desejam engravidar, o plano precisa considerar dor e reprodução ao mesmo tempo.

O que evitar

Evite interpretar “endometriose profunda” como sinônimo automático de caso sem solução.

Evite minimizar o achado como se fosse apenas “cólica normal”.

Evite aceitar cirurgia sem entender quais estruturas estão acometidas e qual é o objetivo do procedimento.

Evite usar exames normais para encerrar a investigação quando a história clínica é fortemente sugestiva.

Evite ignorar sintomas intestinais ou urinários cíclicos.

Evite separar completamente dor, fertilidade e qualidade de vida na tomada de decisão.

Evite procurar apenas o tamanho da lesão e ignorar localização, sintomas e impacto funcional.

Quando procurar avaliação médica?

Procure avaliação se houver dor pélvica crônica, cólica menstrual incapacitante, dor profunda na relação, dor para evacuar durante a menstruação, sintomas intestinais cíclicos, dor para urinar durante a menstruação, sangue na urina ou nas fezes no período menstrual, dificuldade para engravidar ou exame sugerindo endometriose profunda.

Também procure avaliação se houver dor progressiva, piora importante da qualidade de vida, endometrioma associado, suspeita de acometimento intestinal, bexiga ou ureter, ou se uma cirurgia foi indicada sem mapeamento adequado da doença.

A investigação correta não começa pelo medo. Começa por uma pergunta objetiva: onde está a doença, o que ela está causando e qual é o melhor plano para esta paciente?

Mensagem central

Endometriose profunda significa que a doença pode infiltrar estruturas pélvicas e, em alguns casos, envolver intestino, bexiga, ureteres, ligamentos e região posterior da pelve. Esse achado pode estar associado a dor pélvica, dor na relação, sintomas intestinais ou urinários cíclicos e infertilidade.

Mas endometriose profunda não significa automaticamente cirurgia imediata, infertilidade inevitável ou doença sem controle.

A pergunta principal não deve ser apenas: “a doença é profunda?”

A pergunta clinicamente mais útil é: “quais estruturas estão envolvidas, quais sintomas isso causa e qual conduta faz sentido para meu objetivo de vida?”

Quando essa resposta é construída com precisão, o cuidado deixa de ser baseado em medo e passa a ser baseado em estratégia clínica.

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